Arrumei as malas decidida. Hesitei no que colocaria lá dentro. Não queria uma mala com excesso de peso mas queria levar tudo o que me fizesse falta. Sabia que depois era impossível comprar o que necessitava porque há coisas que não se compram. Olhei para a mala e resolvi recomeçar de novo. Estava demasiado cheia de esperança e cheguei à conclusão que essa precisa de estar bem acompanhada se não toma a forma de éter e desaparece.
Fiz e refiz aquela mala vezes sem conta. Por fim arrumei a esperança ao lado da força , da coragem e dos sonhos. Desisti de lutar com os fantasmas, os medos e as incertezas que teimavam em ficar. Coloquei-os numa mochila já que se recusavam a desaparecer. Depois, dobrei cuidadosamente a vontade, a verdade, a amizade, o amor e a paixão por tudo o que faço lado a lado. Fechei a mala cheia de certezas. Peguei na mala , coloquei a mochila às costas e segui decidida rumo ao aeroporto da Minha Vida. A sala estava vazia. Os passageiros já tinham embarcado e eu tinha perdido alguns voos. Senti-me sozinha olhei para o lado e não tinha ninguém para me acompanhar. Pensei que tinha de ser assim há viagens que temos de fazer sozinhas. Sorri para o bilhete que tinha na mão. Lembrei-me de todas as horas que tinham perdido a tomar a decisão do meu destino. A felicidade tinha ganho a todos os outros. Visitei agências de sentimentos, pedi orçamentos, pensei e repensei mas por fim descobri que não vale a pena viajar seja para onde for se não conhecermos a Felicidade. O check-in foi rápido. A mala enviada para o porão e tudo pronto para seguir viagem.
Confesso que enquanto subia as escadas para entrar para o avião comecei a ponderar se devia fazer esta viagem. Voltei-me e já não bastava levar comigo os fantasmas, os medos, as incertezas, reparei que o as certezas do passado, o conformismo e os valores impostos pela sociedade estavam todos ali para me impedir de viajar. Olhei-os, acenei-lhes e resolvi entrar. O voo correu bem o pessoal de bordo era de uma simpatia extrema. Como eu estavam muitos. Trocamos vontades, partilhamos experiências e procuramo-nos uns nos outros. Chegados aos destinos uns ficaram outros partiram. Uns esgotaram a esperança, outros cederam aos medos, outros ainda deixaram-se vencer por fantasmas.
Os que ficaram resolveram seguir o conselho do guia e visitar tudo. Como ele me tinha dito para se conhecer bem a Felicidade temos de visitar tudo mas mesmo tudo. No final da viagem lembro-me de o ter abraçado e lhe ter dito que mais que visitar devíamos sentir tudo.
Apesar das desistências eu fui ficando descobri depois que a teimosia se tinha infiltrado na malita de mão que levava comigo. Começamos por visitar os estados da euforia e o de total desânimo. Passeamos pela Ira, pela Raiva e até, tenho de confessar, dei um pulinho à Vingança. São estados que temos mais tarde ou mais cedo de visitar no entanto não aconselho a ninguém permanecer muito tempo por lá. Causam demasiada angústia e mau estar.
Remámos em canoas feitas de apoio pelo rio da amizade, fizemos piqueniques à sombra da diversão e dos risos. Podem não acreditar mas cheguei a acampar em bungalows cheios de carinho e compreensão. Fiz pequenas visitas a reservas de amor e paixão. Sempre que penso nisso ainda choro de alegria por um dia me ter sido permitido lá estar.
O único senão foi termos sido assaltados pela inveja, mentira e falsidade. Muitos de nós ficaram feridos e decidiram voltar para casa. Eu segui viagem muito magoada mas segui. Afinal já tinha percorrido metade do caminho e nada nem ninguém me iria impedir de chegar ao meu destino. Caminhei noite e dia, perdemo-nos no mato da indiferença e da ofensa, escalamos pela inveja e o ciúme, fomos muitas vezes cercados pela maldade e pelo preconceito mas vencemos porque vínhamos carregados de esperança, vontade e verdade.
Lutámos contra fantasmas e todas as noites quando acampávamos tinhamos o cuidado de alimentar as esperanças e de fechar os medos. Por vezes sentiamos que o desespero nos espreitava mas erámos sempre salvos pelo optimismo.
Hoje chegámos finalmente ao destino da felicidade. Há medida que o grupo ia diminuindo a união ia crescendo. Abraçámo-nos, trocámos contactos e ficaram as promessas de uns almoços e jantares. Agora cada um vai seguir o seu caminho de forma diferente ou igual ao que tinha feito até agora.
Quanto a mim sentei-me no banco da satisfação tendo como companhia a sombra da serenidade e é aqui no rescaldo da viagem que vos escrevo. Fui um eu e fui um nós. Lutei, chorei e venci. Uma viagem dura, longa e cheia de surpresas mas uma viagem que nunca vou esquecer. Neste momento, só quero chegar a casa e abraçar com força o descanso.
Quase que me esquecia de vos contar que parti sozinha mas cheguei acompanhada por alguém que esteve sempre lá. Trocámos conteúdos das bagagens, vivemos emoções juntos, partilhámos lutas e vitórias, vencemos medos, e protegemo-nos do desespero, tratámos das feridas um dos outro e, sem que dessemos por isso tranformámo-nos num Nós.
Hoje enquanto faziamos o ultimo troço da caminhada deu-me a mão e propos-me viajarmos juntos pelo amor . Sorri-lhe dei-lhe um abraço longo e apertado olhei-o nos olhos e pedi-lhe para primeiro passarmos pela confiança, respeito, conhecimento mutuo, cumplicidade, partilha, aceitação e paixão. Riu-se e sussurou-me ao ouvido "Vê-se que não percebes nada de Geografia. Não sabes que isso são provincias do amor?"
(Texto de ficção escrito por mim para a Fábrica de Histórias)




